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Virulência de extremismos

domwalmorA sociedade contemporânea sofre com virulentos extremismos por não ter aprendido lições do milênio passado: nestas duas últimas décadas já foi derramado muito sangue, evidenciando que nem mesmo as conquistas científicas e tecnológicas impedem a propagação da violência. Um simples olhar permite constatar o crescimento das irracionalidades que se revelam nos preconceitos raciais e culturais. Um fenômeno que para ser enfrentado necessita de adequados investimentos humanísticos. Sem esses investimentos, a sociedade, mesmo com tantos avanços técnico-científicos, continuará a padecer com inconcebíveis retrocessos. Dentre os males que abrem feridas sociais está o racismo, que alimenta absurdos ideológicos e provoca perdas irreparáveis, emoldurando posturas que inviabilizam o sonho de uma sociedade justa e igualitária.

Assim, problemas estruturais e conjunturais agravam-se e a civilização contemporânea não consegue dar novos passos, essenciais para que sejam mais respeitados os direitos e a dignidade humana. Conta muito o urgente investimento humanístico para superar os descompassos alimentados no coração das pessoas – um peso grande que pode levar à perda do sentido da vida. Dentre as consequências está a busca por grupos e segmentos com força destruidora, que pensam ser intocáveis e irreparáveis seus juízos sobre a realidade. Uma postura que faz propagar extremismos por toda a sociedade.

Ao eleger o próprio ponto de vista como exclusivo critério para definir o que é verdade, indivíduos criam contexto propício para ataques demolidores. Tomados por um espírito beligerante na defesa de suas próprias convicções, perdem o irrenunciável compromisso com o respeito ao semelhante. Um problema grave também no contexto religioso e entre a militância política, envolvendo ainda vários outros campos da vida social. Trata-se de uma cegueira que impede a adequada identificação de perspectivas divergentes. Falta de visão que abala os alicerces da convivência humana e do sentido inegociável da amizade social. As discordâncias e divergências podem ser muitas, mas nunca podem justificar agressões à amizade social – bem maior de uma sociedade que almeja ser mais justa e igualitária.

Há de se investir muito no cultivo do respeito à vida de cada pessoa, superando polarizações e todo tipo de extremismo. Nesse caminho, deve-se cuidar para não eleger o próprio ponto de vista como critério único e absoluto na interpretação da realidade. Apegar-se agressivamente aos próprios critérios, desconsiderando o semelhante, pode levar ao radicalismo que se expressa de muitas formas: no racismo, nos preconceitos e em tantas outras disputas fratricidas. A superação dessa cegueira pede que muitos e qualificados princípios sejam cultivados, com especial destaque para a compreensão de que cada pessoa precisa ser coração da paz. Um princípio que conduz o ser humano à bondade e ao respeito ao seu semelhante.

Sem o compromisso com a paz, até pequenas divergências podem se agigantar, motivando ataques a dignidades. Aceita-se apenas o que garante o próprio ponto de vista, desconsiderando outras perspectivas sobre a realidade. Percebe-se, pois, que para superar a virulência dos extremismos, cada pessoa precisa exercitar a consciência sobre os fundamentos e as influências que carrega no coração. Nesse exercício, deve-se buscar cultivar no coração o que faz gerar a paz. Para que o ser humano se torne coração da paz é essencial permanecer vigilante para não se tornar hospedaria de ressentimentos motivados por opções ideológicas que inviabilizam a fraternidade. Assim é possível enxergar com mais nitidez. Contribuir para fazer da própria casa, de sua família, de cada comunidade, de cada nação, da casa comum, territórios da fraternidade. Torne-se, pois, um alicerce na vida de todos o princípio cristão de nunca se deixar vencer pelo mal, antes vencer o mal com o bem.

Não se derrota o mal com a maldade, que sempre conduz a quedas, a combates violentos e fratricidas. O bem somente é alcançado com a bondade, rompendo o círculo vicioso do ódio e do ressentimento. As virulências de extremismos, não raramente promovidas por interesses econômicos, pela vaidade da fama, por uma busca pela manutenção das “zonas de conforto”, devem ser enfrentadas com a bondade. A busca pela promoção do humanismo integral e solidário apresenta-se como importante caminho nesse desafio. A civilização pode aproximar-se desse humanismo ao reconhecer a sacralidade de cada pessoa, dando passos na direção do desenvolvimento integral. Esses passos dependem do cuidado com a gramática que rege o coração humano, que não pode deixar-se contaminar por virulentos extremismos – precisa se pautar pelo respeito às diferenças, contribuindo para consolidar, no mundo, a amizade social.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

Vigília de Pentecostes

crismaEnviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra
toda a face renovai. (Sl 103/104)


Neste sábado, dia 27 de maio, celebramos a Vigília de Pentecostes. Antes de alguma solenidade importante da Igreja, sempre acontece a vigília. Ao longo do ano, acontecem várias grandes vigílias: as mais conhecidas são: Vigília da Páscoa (a mais importante do ano e celebrada no Sábado Santo), a Vigília do Natal (celebrada na noite do dia 24 de dezembro) e a Vigília de Pentecostes (celebrada na noite que antecede a solenidade). Com a terceira edição típica do Missa romano se acrescentaram outras.

A Vigília de Pentecostes também é uma das mais belas e importantes da Igreja, pois acontece na noite que antecede a grande solenidade de Pentecostes. Ao longo da vigília, podemos pedir que o Espírito Santo venha sobre nós com todos os seus dons. Celebrar Pentecostes é celebrar a perfeição de Deus e a totalidade de seu amor por nós. Pois os sete dons do Espírito Santo que Deus derrama sobre nós é perfeição de seu amor por nós. Deus nos escolheu e nos enviou, do mesmo modo que fez com os discípulos.

A Vigília de Pentecostes, ao mesmo modo que as outras vigílias, celebra-se a partir das 18h. A vigília poderia ser celebrada de madrugada e ir até ao amanhecer, mas é claro que devido às questões pastorais e de segurança, a vigília é celebrada por volta das 20h. A vigília tem a duração de duas a três horas, mais ou menos. Peçamos com fervor que o Espírito Santo venha sobre a Igreja e sobre cada um de nós e renove em nós o amor a Cristo e à Igreja. Que o Espírito Santo venha em socorro da nossa fraqueza e nos dê o dom da fortaleza.

Com a celebração da Vigília de Pentecostes somos convidados a nos abrir à ação do Espírito Santo e pedir que venha sobre nós os sete dons. O Espírito Santo vem em socorro da nossa fraqueza e nos ajuda a não perder fé e nem a esperança em dias melhores. Somos os escolhidos e amados por Deus, desde o nosso batismo pertencemos a Ele e recebemos a marca indelével do Espírito Santo. Ao longo da nossa vida, temos que viver segundo o Espírito Santo e não segundo a carne.

Ao longo da vigília, além de pedir os dons do Espírito Santo sobre cada um de nós, tem a liturgia da Palavra com uma leitura do antigo testamento, salmo responsorial, segunda leitura e evangelho. A celebração de Pentecostes encerra as celebrações do tempo pascal, e o Círio Pascal é apagado e guardado, mas ele deve permanecer aceso no nosso coração. A cor vermelha predominante na celebração de Pentecostes indica a cor do amor que devemos pela Igreja de Cristo e nos lembra a cor do fogo, que deve abrasar o nosso coração.

Temos como sugestão no diretório litúrgico 4 leituras do AT, salmo responsorial e duas leituras do NT. Selecionamos as leituras abaixo como oportunidade de reflexão.

A primeira leitura escolhida é do livro de Gênesis (Gn 11, 1-9). Até então, os povos falavam uma língua só e todos se entendiam e tinham um único objetivo em comum. Até então os homens partiram do Oriente e foram parar na planície de Sinear e ali se estabeleceram. Eles tiveram a ideia de construir uma torre que atingisse o céu e dessa forma ficassem famosos. A torre se chamaria “torre de babel”. O Senhor vendo aquilo resolve intervir e ver que cidade e que torre eles estavam construindo. O Senhor percebe que aquele era só o começo de seus empreendimentos e decide descer à terra e misturar as suas línguas, ou seja, cada um falaria uma língua, de modo que não se entenderiam. E o Senhor os dispersou pela superfície da terra e eles cessaram de construir a torre.

O salmo responsorial é o 103 (104), que nos diz em seu refrão: “Enviai o vosso espírito Senhor, e da terra toda face renovai”. Peçamos a Deus que envie o Espírito Santo e transforme o coração das pessoas. Que o Espírito Santo derrame os seus dons sobre a humanidade e os povos vivam no amor e na concórdia.

A segunda leitura dessa vigília é de Romanos (Rm 8, 22-27). Paulo relata em sua carta aos romanos que toda a humanidade está gemendo, como em dores de parto. Um contexto bem atual para os dias de hoje, em que vivemos conflitos, guerras e tantas violências em nossas cidades. A humanidade pede socorro e geme como em dores de parto. Mas não devemos desistir da oração e de pedir com fé que o Espírito Santo venha sobre nós. Peçamos que ele venha em socorro da nossa fraqueza e nos ajude a rezar, que por meio do Espírito Santo alcancemos a salvação.

O Evangelho escolhido para essa vigília é segundo João (Jo 7, 37-39). Jesus é a fonte de água viva que sacia a sede da humanidade. Muitos se perguntavam como Ele poderia se dar em comida e bebida? Isso só era possível graças à ação do Espírito Santo. Igualmente, nos dias de hoje, somente pela ação do Espírito Santo temos o Corpo e Sangue de Cristo.

O Espírito Santo nos ilumina com a fé e por meio da fé podemos acreditar que aquele pão e vinho apresentados ao altar se tornaram, pela ação do espírito, em Corpo e Sangue de Cristo. Que o Espírito Santo de Deus renove a nossa fé e a nossa esperança e possamos sempre ter na Igreja a presença real de Jesus Cristo, através da Eucaristia. Que possamos abrir os nossos olhos para a fé.

Celebremos com fé e esperança a solenidade de Pentecostes, participando das celebrações da vigília e do dia de Pentecostes. Que o Espírito Santo venha sobre cada um de nós e nos faça novas criaturas. Coloquemos em pratica a nossa fé no dia a dia e que possamos sempre crer no alimento que nos garantirá a vida eterna, que é o Corpo e Sangue de Cristo. Amém.

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

A Páscoa da Ressurreição, nossa esperança

DSC 0720A nossa Páscoa é Jesus Cristo. A Páscoa cristã se baseia na páscoa dos hebreus presente no Antigo Testamento. Nesta, observamos a prefiguração da realidade futura que é a imolação de Cristo na cruz. O sangue de um animal irracional não seria suficiente para eliminar o pecado. Somente Cristo, Filho de Deus que se fez homem, vai ser capaz de, pelo seu sangue derramado, eliminar a força do pecado e da morte e libertar a pessoa humana, abrindo para ela, novamente, as portas do Paraíso. Ele é o verdadeiro Cordeiro Pascal.

Pelas leituras bíblicas, observa-se que os Apóstolos, mesmo na constatação dos fatos, ainda não entediam bem o que era a ressurreição, ainda que Jesus tivesse se referido a ela em suas pregações, como se pode ver no evangelho de São Lucas: “O Filho do Homem será morto, mas ressuscitará” (cf. Lc 9,22).

Na manhã da ressurreição as mulheres foram ao túmulo e constataram que estava vazio, não percebendo o que havia acontecido. Porém, o próprio Cristo se apresenta vivo a elas, manifestando-se, posteriormente, durante 40 dias, aos Apóstolos e a muitas outras pessoas. Paulo diz aos coríntios que Jesus se apresentou ressuscitado a mais de quinhentas pessoas (cf. I Cor 15, 16).

Os Apóstolos puderam ver, tocar em seu corpo, observar suas chagas, ouvir a sua voz. Um dos elementos caraterísticos das aparições é o aspecto da comensalidade. Em quase todas as manifestações, o Senhor toma refeição com eles, partindo o pão, tomando vinho, comendo peixe. A Igreja vê nestes aspectos a imagem da Eucaristia que ela celebra desde os primeiros dias, como presença viva e contínua do Senhor.

Os Apóstolos poderiam imaginar que a ressurreição fosse apenas uma recordação, a presença da alma de Cristo. Porém, esta explicação não corresponde à realidade, pois a alma não morre. Na verdade, o que eles viram foi o corpo com os sinais da paixão. Um corpo, certamente, diferente daquele anterior, no sentido em que é um corpo glorioso, mas com as mesmas características por eles plenamente reconhecidas. Esse mistério é o fundamento da fé cristã. Trata-se de algo sobrenatural que supera os limites da natureza. São Paulo, escrevendo aos Colossenses, diz: “Se ressuscitastes com Cristo, agora pensai nas coisas do alto, não nas coisas da terra somente” (cf. Cl 3,1). Na verdade, Deus criou o homem e a mulher para serem transformados, para viverem eternamente. O ser humano é um sempre “vir-a-ser”, nos ensina a Filosofia.

O testemunho inequívoco dos Apóstolos e das santas mulheres é a base da fé anunciada e transmitida pela Igreja durante a história. Sem tais testemunhos, a fé cristã seria inútil. O anúncio da ressurreição vem sendo transmitido pela Igreja de geração em geração.

Ainda vivendo as alegrias pascais, que duram 50 dias como se fossem um único domingo, relembremos o Salmo 117: “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos”. A ressurreição do Senhor é nossa esperança, diz Santo Agostinho. Celebrá-la é reconhecer que Deus não desiste de nós, mas espera-nos um dia, na casa eterna, onde viveremos para sempre com ele e os santos que já gozam da visão beatífica.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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